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Paulo Tominaga
(Correio Braziliense, 02/08/2004, p. 18)
Anencefalia
X Liberdade
Após
ter um filho anencéfalo no ano passado, é com pesar
que vejo como o tema tem sido tratado desde a recente decisão
de um dos ministros do STF, na qual se assegura às mães
o direito de dispor da vida daqueles que venham a gerar. É
interessante notar como apenas de modo passageiro se faz referência
a estas pequenas pessoas, ficando a tônica da discussão
sobre um tal "direito à liberdade de escolha" dos
adultos envolvidos no caso. Como se a gravidez correspondesse apenas
a uma vida - a da mãe -, podendo prescindir da existência
do filho.
Este enfoque parece ilustrar como o egoísmo impera em nossa
sociedade. Sempre tinha ouvido falar no amor da mãe por seus
filhos como o mais excelso tipo de amor possível. E desde
os antigos gregos, este costumava ser indicado, para todos, como
um ideal a ser alcançado, na relação com os
demais.
Hoje o que parece preponderar como meta é outra espécie
de "amor", verdadeiro culto religioso, por uma triste
caricatura de "liberdade", entendida como absoluta falta
de compromissos. Não mais se aceita, nem mesmo, o compromisso
de se preservar a vida de um filho, se este não puder corresponder
às expectativas de seus pais ou - o que é pior - da
maioria da sociedade. Neste quadro, fica claro que, para alguns,
só se tem filhos para uma satisfação da auto-estima,
como parte de um projeto pessoal ou para que possam, de certa forma,
"divertirem-se" com as crianças, utilizando-os,
como se fossem um objeto qualquer. Se não há a perspectiva
de que uma criança venha a proporcionar alegrias aos pais,
então é melhor descartá-la o quanto antes -
no ventre da mulher, de preferência, pois assim termina logo
esta existência "insuportável e sem sentido"!
Uma pessoa não pode ser eliminada simplesmente porque não
é como nós gostaríamos que fosse. Criam-se
teorias e mais teorias para tentar encobrir o óbvio: está
se matando uma pessoa, em nome de se "eliminar os terríveis
sofrimentos, verdadeira tortura", que sua existência
causa a sua mãe, a seu pai. Além do mais, dizem, esta
criança está condenada à morte, de qualquer
forma. Assim, apenas se está antecipando aquilo que naturalmente
iria ocorrer em pouco tempo.
Amigos, a criança já terá uma vida breve. Que
saibamos respeitá-la. Posso assegurar, por experiência
própria, que este caminho conduz a um crescimento grande
no amor entre os cônjuges, e na capacidade de se doar aos
demais filhos. Filhos que virão, com certeza, como veio para
nós neste ano o pequeno Rafael - talvez a demonstração
mais palpável de que não há qualquer "trauma"
no caso, se os pais souberem agir com serenidade.
Se realmente desejam ajudar aos que passam por tais situações,
saibam tratar do tema com um enfoque prático que não
distorça a realidade mais óbvia, querendo criar teorias
para esconder uma vida ou afirmar cegamente que este filho nunca
existiu. O problema de saúde, a má formação
da criança, é um fato que atualmente não se
pode reverter. A questão não está apenas no
que se deve fazer durante a gestação. O grande problema,
para os pais - e para a mãe, em especial - é como
lidar com o fato ocorrido, depois deste período ter acabado.
Porque não é possível se esquecer de um filho:
ficará para toda a vida a recordação destes
dias. E então, ou a mãe irá se lembrar de que,
não podendo ajudar seu filho, matou-o, porque ele não
era nem poderia vir a ser como se desejava que ele fosse; ou irá
se lembrar, com carinho e ternura, de que seu filho, que teve uma
breve existência, foi sempre amado e respeitado.
Amem seus filhos. Garanto que vale a pena.
Sr. Paulo
Tominaga pai de Felipe, bebê com Anencefalia.
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