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Testemunho
de Márcia Tominaga, mãe de Felipe.
Eu passei mal
ao tomar uma Coca-cola. Pensei, "hum... estou grávida".
Fiz o teste de farmácia e deu positivo, depois, o resultado
foi confirmado com o Beta HCG.
"Pedro Paulo vai ter um(a) irmãozinho(a)!", pensei.
O tempo passou.
Chegou a hora de fazer o exame de translucência nucal.
O médico que fez a ecografia demorou muito na análise
e, ao final, falou que precisaria repetir o exame na presença
do meu médico. Disse, simplesmente, que não estava
visualizando o fechamento da calota craniana, mas que às
vezes o fechamento demorava um pouquinho. Não saí
alarmada. Achei que não haveria maiores complicações.
O obstetra pediu que eu repetisse o exame em outra clínica
e assim o Dr. Vinagre me deu uma notícia acre: o bebê
tinha acrania e não tinha chances de viver muito tempo depois
de nascido, se chegasse a nascer. Retornei
à clínica. Novo exame, na presença do meu obstetra.
Parecer confirmado: acrania, que evoluiria para a anencefalia.
Fomos para a
sala do médico, para que pudéssemos conversar mais
reservadamente a respeito. A perspectiva não era animadora.
O bebê, se nascesse, teria a chance de viver: até 1hora;
se superada esta primeira hora, até 1 semana; se superada
a primeira semana, até 1 mês; se superado o primeiro
mês, até um ano (no máximo!). O médico
começou a falar sobre a necessidade da autorização
judicial para "interromper a gestação",
mas eu logo o interrompi, perguntando se eu corria risco de vida.
Não, eu não corria risco de vida em razão da
má formação do bebê, "então,
Doutor, este bebê vai nascer!".
E assim foi.
Uma gestação que evoluiu naturalmente, sem percalços.
Poderia dizer que foi a melhor gestação, das seis
que tive até o momento.
Felipe nasceu de parto normal em 17/06/2003, um neto, um belo presente
de aniversário para a minha mãe. Ele viveu vinte minutos,
tendo sido batizado na sala de parto, pelo próprio médico,
o que nos dá a certeza de que sua alma está no Paraíso
(somos católicos e acreditamos que foram cumpridas as disposições
preconizadas pela doutrina católica para tanto). Um santo
filho!
No ano seguinte,
que coisa interessante: a ADPF nº 54, que trata da autorização
para o aborto dos bebês anencéfalos, processo que tramita
no Supremo Tribunal Federal, foi distribuída para o relator,
Min. Marco Aurélio, exatamente no dia em que Felipe, se estivesse
vivo, completaria um ano de vida! Coincidência? Acredito que
não.
Olhando em retrospectiva,
vejo que trazer Felipe ao mundo foi, sem dúvida alguma, uma
dura experiência, pela qual passamos na convicção
de que o respeito à vida e o amor incondicional a um filho,
seja ele como for, tenha ele a má formação
que tiver é o único, apaziguador e verdadeiro caminho
a ser trilhado.
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