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/Gisele e Jander, pais de verdade!
 
Ana Clara, um anjo em nossas vidas...

Olá, meu nome é Gisele, tenho 26 anos, sou de Varginha, sul de Minas Gerais, sou casada há 8 meses com Jander, e hoje estou aqui para falar um pouco da vida da minha filha Ana Clara, que viveu intensamente por 10 dias, completando nossa família.

Foram com certeza os melhores 10 dias de nossas vidas.
A grande guerreira Ana Clara nasceu dia 30 de março às 14h27min., com 38 semanas de vida. Era o bebê mais lindo da maternidade. Estando eu ainda na sala do parto, no momento em que ela nasceu e veio para os meus braços, chorando, foi o momento mais inesquecível de minha vida... a minha filhinha, que eu tanto sonhei, e que carreguei 9 meses no meu ventre, finalmente ali, nos meus braços...e a primeira palavra que eu disse à ela é que eu a amava demais e que estava ali com ela. Logo em seguida ela foi batizada pela vovó, que acompanhou o parto de perto... que momento maravilhoso este, o nascimento de minha filha, que verdadeiramente me deu sentido para o significado de ser mãe.
Ainda na gravidez, a deficiência de Ana Clara foi diagnosticada quando eu estava no 5° mês (incompleto) de gestação, mais precisamente no dia 22 de dezembro de 2008. Ao recebermos a notícia eu e meu marido Jander ficamos muito assustados. "Anencefalia". Não tínhamos a menor idéia do que vinha a ser isso, sem nenhum conhecimento do fato. Os médicos nos diziam que era uma deficiência incompatível com a vida, e que se quiséssemos teríamos o direito, por lei, de interromper a gravidez. Caímos em lágrimas.
 
Nós não acreditávamos que isto estava realmente acontecendo conosco. A partir daí, começamos a procurar ajuda. O meu médico que me acompanhou durante toda a gravidez nos ajudou muito. Explicou que tudo ocorreu por uma má-formação do cérebro da minha filhinha, entre outras coisas, e que ela viria a falecer minutos ou horas depois de seu nascimento. Era difícil demais escutar uma coisa como essa, difícil mesmo.

Foi aí que meu marido procurou o site da Anencefalia, e encontramos aqui pessoas extraordinárias, que nos apoiaram, nos acalmaram. Também aqui em nossa cidade encontramos pessoas que nos ajudaram muito, minha psicóloga, amigos, um casal que também passou por esta mesma situação, o Padre Jean, que realizou meu casamento, enfim, todos nos acolheram em seus corações e nos apadrinharam, acalentando assim nosso coração e nossa alma.

De uma coisa eu estava certa: interromper a minha gravidez jamais. Além de sermos pessoas católicas eu queria demais a minha filha, independentemente do jeito que ela viesse e o tempo que fosse, mesmo com a sua limitação. Eu jamais poderia lhe tirar o direito à vida, e Deus me presenteou por isso, deixando ela 10 lindos dias ao meu lado. E durante estes 10 dias eu pensei comigo mesmo: até que ponto um bebê anencéfalo é incompatível com a vida? Pois eu tive o privilégio de sentir Ana Clara sugar em meu peito, mesmo que não tenha sido o suficiente para alimentá-la, de trocar sua fraldinha encharcada de xixi, de ouvir o estalar de sua boquinha quando eu lhe dava a chupetinha, ver seus dedinhos do pé contraindo quando eram acariciados...ou seja: tudo o que eu vi e vivi com meu anjinho foi VIDA...

Falar da Ana Clara para mim é maravilhoso; eu ficaria uma eternidade falando dela. Na maternidade ela ficou junto comigo o tempo todo, e em nenhum momento precisou de aparelhos para respirar. Deus foi Maior, foi Tudo em tudo em nossas vidas, nos dando a Ana Clara assim, especial. Fomos e somos muito abençoados por ele, pois Ele nos proporcionou grandes momentos com ela. No 5° dia tivemos alta da maternidade, e fomos para casa felizes e radiantes, com nossa filhinha em nossos braços, mesmo sabendo que tudo seria provisório.

Como era bom ficar o dia todo olhando para o meu bebê, ficar com ela no meu colo, sentir seu coraçãozinho bater junto ao meu...nossas vidas completadas pela sua vida. Quanto mais eu olhava para ela, mais eu podia perceber as características minhas e do Jander estampadas em seu rosto. Jander foi um papai maravilhoso, muito presente, carinhoso, ajudou a cuidar dela, acordava nas madrugadas...as vovós também nos ajudaram demais, se revezavam à noite para nos ajudar e ficavam juntinhas dela ( de tão corujas que eram). O que a Ana Clara mais gostava era da hora do banho...ela abria os olhinhos, levantava o pescoço quando jogávamos água e passava a sua mãozinha na água. Por essas e outras coisas que defendo que um bebê anencéfalo tem o mesmo direito que o bebê normal vem a ter! De VIVER!

Eu pensei que eu iria ficar chocada quando visse minha filhinha, diferente dos outros bebês. Mas foi totalmente pelo contrário: minha filhinha era linda, e eu cuidei dela em tudo o que era necessário. Era minha filha e eu daria minha vida por ela se preciso fosse.

Hoje posso dizer que sei o que é ser mãe; é esse amor incondicional, sem esperar nada em troca...amei minha filha desde as primeiras batidas de seu coração minúsculo até as últimas fortes batidas em meus braços...

Na quarta-feira do dia 08 de abril, pela manhã eu senti que a Ana Clara não estava tão bem. No banho ela não reagiu como nos outros dias, e ficamos atentos o dia todo. Ao anoitecer, ela foi ficando fraquinha, com febre, e eu senti que minha anjinha iria partir. Esta noite foi para nós, a noite de Glória, onde minha filhinha voltou para os braços de Jesus. A sua passagem foi maravilhosa, nós passamos a noite rezando, cantando juntos, pedindo que os anjos do Céu acampassem naquele lugar, e eu entreguei-a para Jesus com toda a minha fé...O seu último suspiro foi ás 06h27min., da manhã, nos meus braços, numa quinta-feira santa, um dia lindo, escolhido por Deus, apesar da tristeza e da dor que invadiu nossos corações.

Eu só agradeci a Deus, por tudo, por toda alegria que ela nos proporcionou... contrariando a tudo e todos, até mesmo a medicina, eu tive a minha filha viva comigo por 10 abençoados dias, e tenho a certeza absoluta de que Deus proporcionou em nossas vidas um milagre. Eu pedi tanto a Deus um milagre durante a gravidez que pudesse salvar minha filha, mas o verdadeiro milagre já tinha acontecido, que foi a Ana Clara ter vindo especialmente para nós e ficou até o fim...Hoje tenho a certeza que ela é a estrela mais brilhante no céu azul infinito.

Eu espero que este meu depoimento vá ao encontro de alguém que acessar site da mesma forma que nós acessamos um dia. Tenho a certeza que me tornei uma pessoa mais forte na fé, mais preparada, mais madura. Uma mãe que ama sua filha mesmo sem tê-la a seu lado. Agradeço a Deus todos os dias, dizendo que pedi somente alguns momentos com minha pequena e Ele me proporcionou muitos.

Obrigada meu Deus! Por tudo o que realizas em nossas vidas!