/Matéria
/Pe. André Luna
 
A vida marcou a nossa casa...

Fico feliz de conseguir dizer aqui no "site da Giovanna" (como eu gosto de dizer), algumas coisas muito simples, mas que considero essenciais sobre a vida..

A Giovanna é a minha primeira
afilhada; foi um presente de Deus pra mim. Quando ganhei este presente eu era padre há uns três anos e meio ("padre novo"), na Penha, periferia do Rio de Janeiro. E não poderia ter vindo em melhor hora; uma criança sempre enche a casa da gente de uma luz nova.
Muito bem. As pessoas quando me ouvem falando da Giovanna, ou num show, ou num retiro e, às vezes, até num sermão de Missa, vão criando aquela expectativa: "nossa, que bonito, o padre falando da afilhada..." de repente elas são acordadas por uma palavra mais dura de ouvir: "minha afilhada nasceu portadora de anencefalia... eu assisti ao seu parto e lá mesmo eu precisei batizá-la apressadamente, pois existia o perigo de que ela morresse logo em seguida...". As pessoas nunca estão preparadas para uma notícia tão dura e crua. Mas, eu também estava lá por causa dos meus amigos, meus irmãos, o Marcelo e a Mônica.
O sentimento muda, o coração se abre e a atenção se redobra. "Por que será que o padre está nos falando isso?" E interessante que, quando falo desse acontecimento, tão marcante na minha vida, nunca falo com tristeza ou decepção, ou como se fosse uma tragédia. Falo com esperança, falo da vida intensa da Giovanna, naqueles
 
quase 9 meses ali na vida da Mônica e do Marcelo e depois as 6 horas e 45 minutos junto com todos nós naquele hospital. Falo da coragem de um pai e uma mãe "de primeira viagem", inexperientes, falo da dignidade da vida humana, do direito de viver, do amor de um pai e uma mãe pela sua filhinha...

As pessoas se emocionam, abrem a alma, entendem que aquele dia 25 de março de 2005 - uma Sexta-feira da Paixão - nasceu uma criança que foi muito amada, esperada, celebrada e querida. Nasceu a Giovanna e isso fez muita diferença. A Giovanna foi um sinal visível do amor de Deus pra todos nós.

Embora eu seja padre e, aqui, com certeza alguém vai se lembrar que é um católico falando, um cristão, ou seja, alguém que diz o que diz em nome de sua religião, gostaria de prescindir ou dispensar por um momento esta visão de "categoria" ou "segmento" religioso, no caso de alguém desconsiderar tudo o que eu disse porque crê diferente ou simplesmente por não crer em nada também.

A vida é um valor inalienável. A vida é um valor absoluto, independente de fé, religião ou ideologia. O valor da vida não depende de mim e de ninguém; ela vale por si própria. Ninguém tem o direito de decidir se ela vale ou não, ainda mais quando se trata da vida de outra pessoa. Todo ser humano tem igual direito à vida.

E aqui eu volto a falar da Giovanna. Ela foi gerada e cuidada como gente desde o início. Foi aguardada, foi escolhida e protegida como toda vida frágil e delicada. Muitos não têm a coragem de admitir isso, mesmo olhando para a foto da Giovanna com a toquinha no hospital. Eu insisto: tiraram fotos dela, pegaram as marcas de seu pezinho, ela foi registrada, ela chorou o chorinho de recém-nascido, ela recebeu o colo da mãe...
Alguns poucos que geralmente gritam mais forte não podem admitir a brevidade da vida ou a sua inutilidade (por causa de um provável "defeito" ou imperfeição).

Já escrevi bastante. Interrompo assim, abruptamente. Tenho muito o que falar ainda e espero partilhar algumas coisas bem de dentro do coração, sem jamais dispensar a razão mais equilibrada e a fé no Homem, na Vida, a fé em Deus.

Pe. André Luna (Comunidade Bethânia) - http://www.bethania.com.br/